Entre 14 e 20 de abril de 2026, Genebra viveu a edição mais histórica do Watches and Wonders 2026 — o maior evento de relojoaria do mundo. Diferente de anos anteriores, esta edição bateu recordes de público e de lançamentos. Portanto, se você acompanha o universo dos relógios de luxo, precisa saber o que aconteceu por lá.
A Edição mais Ambiciosa até Hoje

O Watches and Wonders Geneva 2026 consolidou de vez a posição do evento como o ponto de encontro mais importante da alta relojoaria mundial. Realizado no Palexpo, o salão recebeu 65 marcas expositoras em sete dias de programação que uniram o público profissional e os apaixonados pelo universo do tempo, além de um programa paralelo na cidade — o chamado In The City — que transformou Genebra em um parque temático da relojoaria. De fato, os organizadores projetaram receber mais de 6.000 varejistas, 1.700 jornalistas internacionais e cerca de 15.000 convidados, somando-se aos entusiastas do público geral. A edição anterior já havia atraído mais de 55.000 visitantes de 125 nacionalidades diferentes, e tudo indicava que 2026 superaria esse número com folga. O Salão manteve o formato consagrado: quatro dias dedicados aos profissionais (de 14 a 17 de abril) e três dias abertos ao público (18 a 20 de abril), das 8h30 às 19h — exceto na segunda-feira final, que encerrou às 17h.
O Programa: Muito Além das Vitrines
In The City: Genebra Inteira Vira Vitrine

Uma das grandes novidades do Watches and Wonders tem sido levar a relojoaria para fora dos muros do Palexpo. Este ano, o programa In The City foi expandido de forma significativa, transformando o centro histórico de Genebra em um verdadeiro tabuleiro de experiências: boutiques das marcas com ativações exclusivas, workshops para o público, degustações, e até o icônico Relógio das Flores no Jardim Inglês recebeu as cores do evento. A grande estrela dessa edição foi a parceria inédita com o Montreux Jazz Festival. O Montreux Jazz Club ocupou um espaço novo no Quai Général-Guisan, enquanto o Watchmaking Village foi instalado no Pont de la Machine, oferecendo oficinas e painéis de carreira organizados em conjunto com a Associação Patronal da Indústria Relojoeira Suíça (CP). Música, relojoaria e cidade conversando em um só ritmo.
O LAB: Onde o Futuro é Prototipado

O LAB foi totalmente redesenhado para 2026 e passou a focar em inovação e tecnologias emergentes. Foram selecionados cerca de 15 projetos de startups, escolhidos entre 60 candidaturas com base em critérios como inovação, sustentabilidade, impacto social e relevância para o setor relojoeiro. É o espaço para quem quer olhar para a frente — e entender que a relojoaria de luxo não vive apenas do passado.
ECAL, Wake Up! e o Espaço para as Crianças
Pelo terceiro ano consecutivo, a parceria com a ECAL (Universidade de Arte e Design de Lausanne) trouxe instalações imersivas que exploram novas formas de experimentar o tempo. O programa ainda incluiu a exposição Wake Up!, que traça a história e os usos do despertador da Idade Média até os dias atuais — um convite delicioso para os amantes de história da relojoaria. Outra boa surpresa: uma nova área dedicada às famílias, chamada Tic Tac, com oficinas infantis, atividades lúdicas e uma caça ao tesouro pelos corredores do salão. A mensagem é clara: relojoaria é para todas as idades.
Os Lançamentos que Fizeram o Mundo Parar
Agora chegamos àquela parte que você veio ler. Foram centenas de novidades, mas separei aqui o que, na minha leitura, definirá as conversas, os sonhos de consumo e as listas de espera pelos próximos meses.
Rolex: 100 Anos do Oyster
Não tinha como ser diferente. 2026 marca o centenário da caixa Oyster — a pioneira, a primeira caixa à prova d’água do mundo, lançada em 1926 — e ela foi, naturalmente, o centro das atenções no estande da coroa. O modelo comemorativo mais simbólico é o novo Oyster Perpetual 41, apresentado em Yellow Rolesor — a combinação de Oystersteel com ouro amarelo que remete à estética das peças originais dos anos 1920. O destaque fica para o mostrador cinza ardósia com acabamento sunray, acentos verdes nos marcadores de cinco minutos, e uma inscrição discreta porém poderosa: “100 years” substituindo o tradicional “Swiss Made” às 6 horas. Na coroa, o número “100” aparece escondido sob o logotipo da Rolex — aquele tipo de detalhe que só quem ama de verdade percebe. A grande surpresa técnica, porém, foi o retorno completamente repensado do Yacht-Master II. Com caixa redesenhada e um calibre inteiramente novo (o 4162), a escala de contagem regressiva — que antes dominava o centro do mostrador — foi realocada para o flange, deixando o mostrador muito mais limpo. A operação acontece pelos pushers ao lado da coroa, e tanto os minutos quanto os segundos da contagem regressiva correm no sentido anti-horário, uma escolha ergonômica que torna a leitura mais intuitiva. Está disponível em Oystersteel e ouro amarelo, com bezel Cerachrom azul. A Rolex também apresentou um novo Day-Date com liga de ouro Jubilee (uma novidade absoluta na oficina), um Datejust com marcadores feitos em pedras naturais — pela primeira vez na coleção moderna — e diversas atualizações sutis no Cosmograph Daytona. Para quem está acompanhando o mercado, o recado está dado: a coroa aposta alto no colecionador de nicho.

Patek Philippe: Nautilus 50 Anos
O Nautilus completou 50 anos (1976–2026), e a Patek Philippe celebrou à altura. A peça central é um modelo em platina de 38 mm, ultrafino, com mostrador azul-sunburst e o padrão horizontal embutido clássico. Um diamante no marcador das 9 horas sinaliza discretamente o uso do metal nobre, fiel à linguagem do Nautilus original. Internamente, bate o ultrafino Calibre 240 com micro-rotor em ouro 22k gravado com “50 1976 – 2026”. A celebração também contempla uma versão “Jumbo” de 41 mm em ouro branco, disponível em duas variantes limitadas: 2.000 peças com bracelete e 1.000 peças com pulseira de material compósito azul-marinho. Para completar, uma exclusivíssima pedestal clock em ouro branco limitada a apenas 100 peças no mundo todo.

Vacheron Constantin: Elegância Ultrafina e o Retorno do Calibre 1120
Sete anos de desenvolvimento resultaram no Overseas Self-Winding Ultra-Thin Calibre 2550. Herdeiro direto do Calibre 1120 — aquele que os colecionadores imploravam por anos para ver de volta — o novo movimento tem apenas 2,4 mm de espessura (o equivalente a dois cartões de crédito empilhados), mas combina micro-rotor, barril duplo suspenso e trem de engrenagens compacto em um único nível. A peça é apresentada em caixa de platina de 39,5 mm com mostrador salmão — cor que, por si só, já justifica a fila de espera. Preço: US$ 120.000. Para marcar os 30 anos da coleção Overseas, a Vacheron apresentou ainda as novas referências Overseas Dual Time Cardinal Points em titânio, com mostradores nas cores simbolizando os pontos cardeais: branco (norte), marrom (sul), verde (oeste) e azul (leste). E, fechando o capítulo, os clássicos Historiques American 1921 ganharam novas versões em ouro rosé de 36,5 mm e 40 mm com mostrador prateado granulado e marcadores em azul.

A. Lange & Söhne: Alemanha em Estado de Graça
A manufatura de Glashütte trouxe dois trunfos. O primeiro é o Lange 1 Tourbillon Perpetual Calendar “Lumen”, uma edição limitada a 50 peças com mostrador semitransparente em safira que permite admirar o novíssimo calibre L225.1. O calendário perpétuo só precisará de correção em março de 2100. Caixa de 41,9 mm em platina, reserva de marcha de 50 horas e — pela primeira vez na marca — rotor central em ouro branco 18k com massa centrífuga em platina. O segundo é o Saxonia Annual Calendar, uma obra-prima de refinamento. Caixa de 36 mm (em ouro branco ou rosa), movimento automático L207.1 inédito, e uma lua em fase miniaturizada decorada com 428 estrelas. Os pontos dos marcadores ganharam formato de pirâmide, e os três subdiais receberam azurage filigranado — aquele acabamento tridimensional que faz toda a diferença sob a luz correta.

Jaeger-LeCoultre: O Relojoeiro dos Relojoeiros
A “grande dame” de Le Sentier lançou peças que vão direto para os livros. O Master Hybris Mechanica Ultra-Thin Minute Repeater Tourbillon é um tourbillon volante combinado com minute repeater em apenas 5 mm de movimento dentro de uma caixa de 8,25 mm — 10 peças no total, com pontes de safira esqueletizadas e sistema de corda periférico. O Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon À Stratosphère traz um tourbillon de triplo eixo impressionantemente leve (0,78 gramas), em caixa de platina de 42 mm, limitado a 20 peças. É o tipo de peça em que movimento e mostrador se fundem de forma praticamente indistinguível. Há ainda o Master Grande Tradition Tourbillon Jumping Date, em ouro rosa de 42 mm com mostrador esqueletizado em esmalte azul com padrão barleycorn. E não podemos esquecer os novos Reverso Tributes em homenagem a Hokusai, com dial inspirados no mestre japonês da xilogravura.

IWC: A Estrela é o Ingenieur
Foi um grande ano para a coleção Ingenieur. A IWC apresentou um perpetual calendar em titânio, um tourbillon em ouro maciço e diversas novidades na linha de 35 mm. Para muitos editores, o destaque foi a versão em cerâmica verde-oliva — uma combinação rica e orgânica com acentos em ouro, incluindo a coroa inteiramente em ouro. Houve ainda o impressionante Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar Ceralume (46,5 mm) — limitado a 250 peças — que estreia uma cerâmica luminescente proprietária feita de pó de cerâmica misturado com pigmentos Super-LumiNova. De dia, é um estudo em branco e cinza; de noite, emite um brilho azul intenso e uniforme. O Ingenieur Perpetual Calendar 41 em titânio Grade 5 — 41,6 mm, calibre manufatura 82600 — entrou no jogo dos esportivos de luxo, enquanto o Portofino Automatic Day & Night 34 Le Petit Prince trouxe o Pequeno Príncipe para a linha vestida, com um subdial rotatório dia/noite às 6 horas em que o personagem aparece sobre a lua. US$ 7.200 — entrada muito bem construída.

Bulgari: Quando Ultrafino Encontra Miniaturização
A Bulgari encolheu seu ícone: o Octo Finissimo 37 chegou com 37 mm de caixa, pesando apenas 65 gramas e com um movimento in-house BVF 100 mais eficiente graças a um micro-rotor otimizado. São quatro novas referências — em titânio jateado, titânio satinado-polido, ouro amarelo 18k e uma quarta versão que esconde uma surpresa: um repetidor de minutos dentro da mesma caixa de 37 mm em titânio jateado. Para os colecionadores exigentes, a marca também lançou o Octo Finissimo Ultra Tourbillon em Platina, limitado a 10 peças — com apenas 1,85 mm de espessura no movimento, mantendo o recorde mundial de tourbillon volante mais fino do mundo.

Chopard: A Cada Ano, mais Refinada
A Chopard trouxe o novo Alpine Eagle 41 XPS em aço Lucent, com 8 mm de espessura e um sistema de ajuste rápido da pulseira integrado ao fecho que permite expandi-la em até 5 mm — uma mão na roda para quem convive com variações de temperatura no pulso. O mostrador ganhou um tom champagne chamado “Mountain Glow”, inspirado nos raios de sol sobre os Alpes. Para celebrar os 30 anos da manufatura em Fleurier, a Chopard relançou o L.U.C 1860 — o movimento foi a evolução direta do primeiro calibre concebido pela manufatura há três décadas. A caixa compacta de 36,5 mm agora em aço Lucent, com mostrador “Areuse Blue” em guilloché feito à mão.

TAG Heuer: Experimentação Radical
O Monaco Evergraph é um dos grandes lançamentos técnicos do ano. Movido pelo novo Calibre TH80-00, o relógio introduz um mecanismo de cronógrafo compliant construído em torno de componentes bi-estáveis flexíveis, substituindo alavancas e molas tradicionais. Desenvolvido no TAG Heuer Lab em parceria com a Vaucher Manufacture Fleurier, com frequência de 5 Hz e o oscilador TH-Carbonspring resistente a magnetismo. Caixa quadrada de 40 mm em titânio Grade 5.

Zenith: Cronometria em Nova Era
Seguindo o sucesso do debut premiado do G.F.J. em 2025, a Zenith expandiu a coleção com duas versões distintas baseadas no revivido Calibre 135 — uma em ouro amarelo 18k com mostrador em bloodstone e uma muito rara em tântalo, limitada a apenas 20 peças com centro em ônix preto e índices em diamantes. A edição em tântalo tem a vantagem adicional de resistência elevada a arranhões, além de uma combinação estética incrível com o mostrador preto e pulseira azul em jacaré — uma escolha inspirada. O Chronomaster Sport Skeleton Chronograph colocou o icônico El Primero totalmente à mostra, em versões em aço com bezeis de cerâmica preta ou verde e uma edição limitada de 10 peças em ouro rosa com diamantes baguete. Para conhecer outras marcas do universo da relojoaria, confira nosso artigo sobre Christopher Ward e nosso guia sobre os relógios essenciais para uma coleção.

Tendências que Marcaram 2026
Depois de circular pelos estandes (e ler tudo que saiu sobre o salão), algumas tendências ficam evidentes:
- O retorno aos tamanhos menores: Bulgari com o Octo Finissimo 37, Patek Philippe com o Nautilus de 38 mm em platina, Chopard com o L.U.C 1860 em 36,5 mm — o movimento para relógios mais discretos continua em alta.
- Materiais exóticos em cena: Tântalo (Zenith), cerâmica luminescente (IWC Ceralume), tecnologia compliant (TAG Heuer) — as marcas estão apostando em materiais e processos que separam o joio do trigo.
- Convicção sobre espetáculo: Os lançamentos mais fortes de 2026 não foram os mais barulhentos nem os mais complicados, mas aqueles entregues com convicção. Algumas marcas olharam para trás, retornando às formas e histórias que construíram sua autoridade; outras seguiram para frente via mecânica, materiais ou um senso mais apurado de modernidade.
- Celebrações de aniversário: Oyster (100 anos), Nautilus (50 anos), L.U.C (30 anos da manufatura Chopard) — um ano forte para homenagens aos ícones.
- A alta joalheria encontra a alta relojoaria: Bulgari Serpenti lidera o diálogo entre jóia e relógio, que nunca esteve tão rico.
O que Esperar Adiante
O Watches and Wonders 2026 fechou com a sensação de que a relojoaria mecânica está em um momento de maturidade criativa. As manufaturas estão cada vez mais autoconfiantes — sabem quem são, para quem fazem, e não se deixam levar pelo barulho do mercado. Isso não significa conservadorismo: pelo contrário, vimos experimentações ousadas como o compliant chronograph da TAG Heuer e a cerâmica luminescente da IWC, convivendo harmoniosamente com revisitações elegantes de clássicos. Em suma, para o colecionador brasileiro que acompanha o setor, o recado é claro: há peças para todos os gostos e bolsos. Das novas referências Oyster Perpetual com história centenária às apostas ousadas de marcas independentes, 2026 entregou um dos anos mais ricos em conteúdo da última década. Na No Mundo dos Relógios, seguiremos acompanhando cada um desses lançamentos de perto ao longo do ano — com análises detalhadas, impressões no pulso, e aquele papo reto que você já conhece.
Fontes consultadas: watchesandwonders.com, Robb Report, Teddy Baldassarre, Worldtempus, Time and Tide Watches, Oracle of Time, WatchGecko, Monochrome Watches, Hypebeast, Haute Time, I-M Magazine, WatchPro, Insight Luxury.Gostou do conteúdo? Compartilhe com aquele amigo que vive falando em Watches and Wonders. E conta pra gente nos comentários: qual lançamento de 2026 te conquistou?
