Dois caminhos para o céu.
Nos anos 1920 e 1930, o relógio de pulso deixou de ser acessório e virou instrumento de bordo. Antes do GPS e do radar, o piloto calculava a posição com mapa, bússola e tempo decorrido, e um relógio que adiantasse alguns minutos podia colocar o avião dezenas de quilômetros fora da rota.
Dessa época saiu o vocabulário que até hoje define um relógio de piloto: numerais arábicos grandes, ponteiros luminescentes, escala de minutos legível num relance e uma coroa generosa. O Longines Spirit e o Oris Big Crown falam essa mesma língua. O que muda é o sotaque: um interpreta essa herança com o design e a precisão de hoje, o outro preserva quase intacto o desenho de 1938.
Quase um século depois, os herdeiros dessas duas respostas estão lado a lado sobre a nossa mesa. O Longines Spirit tem 37 mm. O Oris Big Crown Pointer Date Cervo Volante tem 38 mm. Custam praticamente o mesmo. Quando tamanho e preço se anulam, sobra a pergunta que realmente importa: qual dos dois conversa com o seu jeito de usar relógio?
A linhagem: quando o pulso virou cabine
Para entender os dois relógios, vale voltar às cabines dos anos 1930. Eram abertas ou mal vedadas, sem aquecimento, e a milhares de pés de altitude o frio exigia luvas grossas. Os relógios da época tinham corda manual: era preciso girar a coroa todos os dias e acertar a hora antes de cada voo. Com uma coroa pequena, isso significava tirar as luvas no frio. A solução foi simples e virou código do gênero: coroas grandes, fáceis de pegar e girar com as mãos protegidas.
A Longines nasceu em 1832, em Saint-Imier, no Jura suíço. Em 1889 registrou a ampulheta alada, hoje a marca mais antiga ainda ativa e inalterada no registro internacional da OMPI. A relação com a aviação é documentada: a casa é cronometrista oficial da Federação Aeronáutica Internacional desde 1919 e cronometrou, em 1927, a travessia solitária do Atlântico de Charles Lindbergh, 33 horas e meia entre Nova York e Paris. Quatro anos depois, o próprio Lindbergh desenhou com a Longines o Hour Angle, um relógio de navegação com 47 mm de caixa e uma coroa em formato de cebola, grande o bastante para ser operada numa cabine aberta e gelada. Amelia Earhart, Howard Hughes e Amy Johnson voaram com instrumentos da marca.
A Oris, fundada em Hölstein, levou a mesma lógica para um relógio mais simples, de três ponteiros e data. Em 1938 lançou um modelo pensado para pilotos: a coroa de tamanho incomum, que acabaria dando nome ao relógio, numerais arábicos grandes para leitura num relance, luneta canelada e uma solução curiosa para a data, indicada por um ponteiro central que percorre uma escala na borda do mostrador. Nascia o Big Crown Pointer Date. Ele sobreviveu à crise do quartzo, ajudou a Oris a reafirmar sua vocação mecânica nos anos 1980 e permanece até hoje como a assinatura da marca.
Hoje os dois têm corda automática, e a coroa grande deixou de ser necessidade para virar assinatura. Mas é ela que conta de onde eles vêm. Os dois saíram da mesma escola; a diferença está na forma como cada marca decidiu levá-la para o presente.
Longines Spirit 37 mm: o instrumento

A coleção Spirit foi apresentada em 2020 como uma homenagem aos pioneiros da aviação. A versão de 37 mm chegou em 2022 e, para muitos colecionadores, é a proporção mais fiel ao espírito dos relógios de piloto da época, quando 40 mm já era considerado grande. A referência analisada aqui é a L3.410.4.93.0, com mostrador azul raiado e pulseira de couro azul.
A caixa. Aço escovado, luneta polida, 11,7 mm de espessura e 44,8 mm de ponta a ponta das alças. Os números importam porque explicam o comportamento no pulso: o Spirit 37 assenta baixo, não ultrapassa a largura da maioria dos pulsos e desliza sob o punho da camisa sem esforço. A coroa canelada e rosqueada, generosa para o diâmetro, é uma citação direta das coroas de aviador. A resistência é de 100 metros.

O mostrador. É aqui que o Spirit pede que você desacelere. O azul raiado muda de tom conforme o ângulo da luz: quase preto na sombra, azul profundo sob a lâmpada, com reflexos que irradiam do centro. Os numerais arábicos são aplicados, ou seja, peças em relevo fixadas sobre o mostrador, e preenchidos com Super-LumiNova. A escala de minutos corre num anel ligeiramente elevado, criando profundidade. O ponteiro de segundos termina numa ponta vermelha, o único traço de cor quente no conjunto, e a data ocupa uma janela discreta às 6 horas.

As cinco estrelas. Logo acima da palavra Chronometer estão cinco pequenas estrelas aplicadas. Não são ornamento. Na história da Longines, estrelas no mostrador indicavam o grau de qualidade do calibre, e cinco era a classificação máxima. A marca recuperou esse código para a coleção Spirit como uma declaração: o que está lá dentro merece a nota mais alta.
O calibre. O L888.4 é exclusivo da Longines, desenvolvido sobre a base ETA A31.L11. Bate a 25.200 alternâncias por hora e entrega 72 horas de reserva de marcha. Na prática: você tira o relógio na sexta à noite e ele ainda está funcionando na segunda de manhã. A frequência um pouco mais baixa que a usual é justamente o que permite essa autonomia.
O detalhe mais importante, porém, é invisível. A espiral do balanço, a mola finíssima que regula cada oscilação, é feita de silício monocristalino. O silício não é magnetizável e reage muito menos às variações de temperatura do que as ligas metálicas tradicionais. Num mundo de celulares, notebooks e fechos magnéticos, isso protege a precisão no uso diário.

O certificado. Cada movimento passa pelo COSC, o instituto oficial suíço de cronometria. São 15 dias de testes em cinco posições e três temperaturas, e só recebe o título de cronômetro o movimento que mantém variação média entre 4 segundos de atraso e 6 de adiantamento por dia. É a mesma lógica dos instrumentos que a Longines entregava aos aviadores: precisão medida, documentada e assinada.

A assinatura. O fundo é fechado, preso por seis parafusos, com o globo e a ampulheta alada gravados. A coroa traz o logotipo em relevo. Até a fivela é assinada. Uma ressalva honesta: o fundo fechado significa que o calibre não fica à vista. O Spirit guarda o seu motor. Quem quer ver o balanço trabalhar terá de olhar para o outro relógio desta matéria.
Oris Big Crown Pointer Date Cervo Volante 38 mm: o caráter

Se o Spirit é um instrumento, o Big Crown é um personagem. Tudo nele foi desenhado para ser tocado, girado e lido com rapidez, e isso transparece mesmo hoje, quando ninguém mais pilota de luvas de couro. A referência é a 01 754 7779 4065-Set, com mostrador azul degradê e pulseira de couro de cervo.
A caixa. Aço, 38 mm, com a luneta canelada que funciona como moldura e captura luz em cada sulco. A coroa é o nome do relógio: grande, assinada e rosqueada. O cristal de safira é abaulado nas duas faces, com tratamento antirreflexo na face interna, e produz uma leve distorção nas bordas do mostrador quando visto de lado, um efeito que remete diretamente aos cristais de acrílico dos relógios antigos. A resistência é de 50 metros.

O mostrador. Degradê de azul, mais claro no centro e escurecendo em direção à borda, inspirado nas cores dos Alpes. Os numerais arábicos têm o desenho característico da linha, com o 4 de traço curvo. O ponteiro das horas tem formato catedral e o material luminescente tem um tom levemente envelhecido, que conversa com a pulseira e com a proposta vintage do conjunto.

A data no ponteiro. É a complicação que define o modelo desde 1938. Em vez de uma janela recortada no mostrador, os dias de 1 a 31 ocupam um anel na borda e um quarto ponteiro central, com ponta em crescente, avança um passo a cada meia-noite. O ganho é a simetria: nenhum recorte interrompe o desenho. O custo, e vale dizê-lo, é que num mostrador já rico em informação a data exige um segundo olhar. Para quem lê a data uma vez por dia, é um charme. Para quem a consulta a toda hora, a janela do Spirit é mais imediata.
O calibre. O Oris 754 é construído sobre a base Sellita SW 200-1, com 26 rubis e 28.800 alternâncias por hora. A frequência mais alta resulta num ponteiro de segundos de varredura mais fluida, e a reserva fica em torno de 38 horas. Pelo fundo transparente aparece o rotor vermelho, marca registrada da Oris. Não é um cronômetro certificado. É um movimento robusto, comprovado em milhões de unidades e fácil de manter em qualquer oficina qualificada do mundo.

A pulseira. Aqui o Big Crown conta uma história que nenhum outro relógio desta faixa conta. A Cervo Volante foi fundada em 2017, em Zurique, por uma engenheira de biotecnologia e uma bióloga. A Suíça realiza todos os anos um controle populacional regulamentado de cervos vermelhos, necessário para proteger as florestas alpinas, e boa parte dessas peles era simplesmente queimada. A Cervo Volante passou a recuperá-las e a curti-las com tanino vegetal, nos dois últimos curtumes suíços que trabalham só com esse processo. As pequenas marcas naturais da vida do animal são mantidas, não escondidas.
O nome guarda uma segunda leitura: cervo volante é como se chama o besouro de mandíbulas em forma de chifres, o mesmo gravado no couro da pulseira. A colaboração com a Oris começou em janeiro de 2022, com três mostradores, e faz parte do programa de sustentabilidade da marca. O relógio acompanha estojo de viagem e porta-cartões no mesmo couro de cervo.
Frente a frente

| Longines Spirit | Oris Big Crown Cervo Volante | |
|---|---|---|
| Referência | L3.410.4.93.0 | 01 754 7779 4065-Set |
| Diâmetro | 37 mm | 38 mm |
| Entre alças | 19 mm | 19 mm |
| Calibre | L888.4, base ETA A31.L11 | Oris 754, base Sellita SW 200-1 |
| Frequência | 25.200 alt/h | 28.800 alt/h |
| Reserva de marcha | 72 horas | cerca de 38 horas |
| Espiral | Silício | Liga metálica tradicional |
| Certificação | Cronômetro COSC | Sem certificação |
| Data | Janela às 6h | Ponteiro central |
| Coroa | Rosqueada, canelada | Rosqueada, sobredimensionada |
| Cristal | Safira | Safira abaulada nas duas faces |
| Fundo | Fechado, gravado | Transparente |
| Resistência à água | 100 m | 50 m |
| Pulseira | Couro azul | Couro de cervo curtido com tanino vegetal |
Um detalhe que a tabela revela: os dois têm coroa rosqueada, mas o Spirit resiste a 100 metros e o Big Crown, a 50. Vedação é um projeto de caixa inteiro, não uma característica isolada da coroa.
No pulso
As fotos desta matéria foram feitas pela New Store, com os dois relógios em mãos, num pulso de 17,2 cm de circunferência. É uma medida média, que ajuda a entender como cada um se comporta na vida real.
No papel, a diferença é de um milímetro. No pulso, ela aparece de outro jeito. O Spirit veste menor do que os seus 37 mm sugerem: as alças são curtas, com 44,8 mm de ponta a ponta, e o cristal plano deixa o perfil baixo e rente ao pulso. O Big Crown ocupa mais espaço visual: o cristal abaulado ganha altura e a luneta canelada alarga a moldura do mostrador.
Tenho o Big Crown Cervo Volante na minha coleção, e o que me conquista é o mostrador. O degradê muda de tom conforme a luz, e cada detalhe traduz a essência desta colaboração, uma das mais bem-sucedidas da Oris. É um relógio vintage feito nos dias de hoje, com identidade própria, que chama atenção por onde passa.
Felipe Newbold, proprietário da New Store Relógios
Lado a lado, o Spirit fala outra língua. Ele parte dos mesmos códigos da aviação, numerais arábicos, escala de minutos e ponteiros luminescentes, mas com acabamento e proporções de agora: mostrador raiado que reage à luz, numerais aplicados e polidos, caixa de linhas retas alternando superfícies escovadas e polidas. Não é um relógio que imita o passado. É um relógio de piloto desenhado hoje, enquanto o Big Crown é a releitura direta de um desenho de 1938.
Na rotina, isso vira escolha de uso. O Spirit transita para o terno com naturalidade: é um relógio de piloto que se comporta como relógio de escritório. O Big Crown, com coroa protagonista e couro rústico, pede jeans, jaqueta, sábado. Também vai ao terno, mas como declaração de estilo, não como discrição.
Em pulsos mais finos que o das fotos, vale observar a coroa do Oris: grande por definição, ela pode tocar o dorso da mão quando o pulso se flexiona. Não é defeito, é a origem do modelo. Experimentar é a melhor resposta.
O veredito: qual vai para o seu pulso

Não existe vencedor objetivo aqui, e desconfie de quem disser o contrário. Existem dois temperamentos.
Escolha o Longines Spirit se o seu critério é rigor. Precisão certificada, resistência ao magnetismo, três dias de reserva e 100 metros de vedação. É o relógio para marcar um marco profissional, uma formatura, uma promoção, uma empresa que completa dez anos: uma peça que vai medir as próximas décadas com a mesma exatidão com que mediu o primeiro dia.
Escolha o Oris Big Crown Cervo Volante se o seu critério é narrativa. Um desenho contínuo desde 1938, um calibre que se deixa ver, uma complicação que conversa e uma pulseira com origem rastreável. É o relógio para quem quer personalidade no pulso: uma peça que puxa conversa e que se escolhe pelo prazer de olhar.
No fim, os dois cumprem a mesma função com a mesma seriedade suíça. O que muda é o tom: o Spirit fala em números, o Big Crown fala em caráter. A escolha diz mais sobre quem usa do que sobre o relógio.
Ficha técnica e preços
- Longines Spirit 37 mm azul, referência L3.410.4.93.0: R$ 18.375,00 à vista, ou R$ 21.617,65 em até 12x sem juros.
- Oris Big Crown Pointer Date Cervo Volante 38 mm, referência 01 754 7779 4065-Set: R$ 17.900,00 à vista, ou R$ 21.058,82 em até 12x sem juros.
Os dois estão à pronta entrega na New Store, entregues em uma semana. Relógios originais, com garantia do fabricante na rede autorizada. Veja também toda a linha Longines e Oris, ou fale com o nosso atendimento pelo WhatsApp (21) 98146-3519.
Preços conferidos em 27 de outubro de 2026.
